Tijolômetro – A Meia-Irmã Feia (2025)

Os contos de fadas são um dos formatos mais consagrados de se contar uma história com lições de valor e moral. Essas narrativas são recontadas até hoje de diferentes maneiras, cada uma buscando se destacar das demais em algum aspecto. A Meia-Irmã Feia, escrito e dirigido pela norueguesa Emilie Blichfeldt, revisita um desses clássicos sob a ótica sombria e perturbadora do terror corporal.
Baseado no conto da Cinderela, o longa mostra o ponto de vista de Elvira (Lea Myren), a meia-irmã da bela Agnes (Thea Sofie Loch Næss). Determinada a conquistar o coração do príncipe Julian (Isac Calmroth), Elvira se submete aos procedimentos estéticos mais radicais e dolorosos existentes para se enquadrar nos padrões sociais de beleza.
A Meia-Irmã Feia ignora completamente a aura de magia dos contos de fadas estabelecida pelas adaptações da Disney. Seguindo o caminho oposto, a produção está muito mais próxima da versão obscura narrada pelos irmãos Grimm. Na verdade, o roteiro de Emilie Blichfeldt vai além ao apresentar personagens imperfeitos e focar no horror corporal como elemento de destaque.
Nesse quesito, fica impossível não fazer uma comparação com A Substância, que aborda essa mesma temática. Contudo, o filme protagonizado por Demi Moore possui um tom mais grotesco ao brincar com o absurdo. Já essa releitura de Cinderela tem momentos que causam mais repulsa por se aproximarem da realidade e mostrar procedimentos que, de fato, existiram séculos atrás. Essa verossimilhança atinge o espectador em uma área mais sensível e perturbadora, visto que é fácil ter empatia pela dor e sofrimento da protagonista.
De qualquer forma, ambas as produções levantam a questão, ainda atual, da cobrança pelo corpo feminino perfeito. No caso específico de Elvira, ela sofre com a pressão da mãe e da sociedade como um todo, que enxergam na beleza a única maneira de uma mulher alcançar status através do matrimônio.
Esse detalhe acrescenta algumas camadas à personagem central. Ao mesmo tempo em que é uma vítima que desperta comoção, ela também se mostra uma vilã motivada pela própria obsessão. Mesmo cercada de futilidades e exemplos negativos, ela não se exime da responsabilidade por suas próprias ações.
O apelo visual do longa é tão marcante que garantiu uma indicação ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Maquiagem e Penteado. O bom trabalho da equipe de produção é fundamental para atingir o nível exato de agonia e repulsa no público. E, apesar de não ter recebido uma nomeação para Figurino, essa parte também chama a atenção pela caracterização dos personagens.
Mesmo sob uma abordagem distorcida e grotesca, A Meia-Irmã Feia encerra provocando um juízo de valor que condiz com a proposta dos contos de fadas. O horror corporal revela-se apenas uma forma bem-sucedida e criativa para entregar a mesma mensagem, sem apelar para o genérico desfecho “felizes para sempre”.
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