Quando leio e gosto do trabalho de um escritor, sempre procuro por mais obras de sua autoria. Por isso, assim que Roberto Campos Pellanda anunciou que seu novo livro havia sido publicado, fui logo conferir. Com uma estrutura totalmente diferente da trilogia Mar Interno, Baikal, primeiro volume da duologia Céu de Chumbo, é uma distopia que mistura ficção científica e suspense em um cenário repleto de segredos.
Em Vestsa, ser um bom cidadão significa obedecer aos Dogmas impostos pelo Diretorado. Alana é uma física de partículas que tenta viver em paz dentro desse regime autoritário. Porém, sua vida muda quando um Fiscal bate à sua porta com uma ordem: ela deve se tornar síndica do Baikal — prédio onde mora na periferia de Katrinstad — para espionar o novo inquilino. Enquanto exerce a função, Alana descobre que não é a única moradora a guardar segredos que desafiam o Diretorado e os Dogmas. Pior ainda, ela passa a suspeitar que a opressão do governo não é a maior ameaça que paira sobre a nação.
A história se desenrola inteiramente no Baikal. A impressão que tive foi a de que o edifício em si é tratado como um personagem sombrio e onipresente que observa seus moradores sem nunca intervir. Essa interpretação é reforçada pela estrutura do livro, pois, em vez de numerar os capítulos, o autor os divide de acordo com as dependências do prédio onde a ação acontece. Há também o acréscimo das plantas baixas dos andares com os apartamentos e os respectivos moradores para facilitar a identificação.
Mesmo com um ambiente aparentemente limitado, o leitor tem uma dimensão do cenário político de Vestsa, cuja inspiração — segundo o próprio Pellanda — vem da Alemanha Oriental (1949 a 1990). Nessa atmosfera de opressão, a guerra contra a nação de Bolgar e a propaganda partidária remetem ainda mais ao mundo distópico de George Orwell em 1984.
Além da narrativa principal dentro do Baikal, a contextualização geral ganha outras nuances com duas tramas paralelas que se complementam. A primeira delas é composta pelas Memórias de Guerra que mostram as lembranças de Alana durante o último confronto armado com o país vizinho e esclarecem parte de suas motivações. A outra é a radionovela Engenharia Proibida, uma história dentro da história que possui grandes implicações, ainda que previsíveis, para a protagonista.
Como eu disse no começo, Baikal mistura elementos de ficção científica e suspense em um mundo distópico. Contudo, eu senti falta de uma presença maior da Ciência na trama, principalmente pelo fato de Alana ser física de partículas e, por isso, muito inteligente. Mas, embora ela seja perspicaz ao fazer diversas deduções corretas, deixa de perceber coisas óbvias. Sem contar que, em alguns momentos, ela se torna um joguete na mão de seus adversários.
O desfecho responde a uma quantidade de questões suficiente para me deixar satisfeito, ainda que algumas soluções tenham me parecido fáceis. Já os ganchos para o segundo volume me deixaram curioso para retornar a esse universo. Ao que tudo indica, teremos uma mudança de perspectiva e agora resta saber qual será a abordagem adotada pelo autor na continuação.
Depois de conhecer o trabalho de Roberto Campos Pellanda com uma trilogia de fantasia, passar para uma distopia de ficção científica é uma mudança significativa, porém instigante. Em Baikal, o autor demonstra versatilidade ao transitar de um gênero para outro e prende a atenção com um cenário que, em diversos momentos, se sobressai aos próprios personagens que o habitam.
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