Tijolômetro – Zafari (2024)

A fome pode levar o ser humano a atitudes extremas para saciá-la. Aproveitando-se dessa ideia, a cineasta venezuelana Mariana Rondón constrói uma distopia que joga seus personagens em um ambiente hostil marcado por desigualdades. Contudo, Zafari não consegue sustentar o peso da própria mensagem e apresenta uma experiência frustrante e incompleta.
A chegada do hipopótamo Zafari em um pequeno zoológico de Caracas é comemorada por pessoas de diferentes classes sociais. Porém, enquanto o país inteiro enfrenta uma escassez severa de alimentos, água e energia, o animal é o único que ainda tem o que comer. Uma família que vive em um decadente condomínio de luxo observa tudo de sua janela conforme a situação piora. A mulher, Ana (Daniela Ramírez), percorre os apartamentos abandonados em busca de comida; o marido, Edgar (Francisco Denis), tenta encontrar uma forma de deixar a Venezuela; já o filho deles, Bruno (Varek La Rosa), se distancia cada vez mais dos pais.
O local onde a trama se desenrola é conhecido apenas graças à sinopse, pois em momento algum isso é mencionado no longa. Esta não é a única informação que falta, visto que o contexto sociopolítico do país fica mal compreendido. A limitação do cenário ao apartamento dos protagonistas e ao zoológico pouco contribui para situar o espectador sobre a origem e o desenvolvimento da crise em uma escala maior.
Tais falhas de construção se estendem para a atmosfera que o filme deseja transmitir. A proposta de criar um suspense com elementos de terror não convence. Os sons do prédio vazio não atingem seu objetivo e poucas cenas conseguem provocar repulsa. Nem mesmo a ameaça da fome mantém a tensão psicológica elevada, gerando altos e baixos que prejudicam o ritmo narrativo. Em consequência, o destino dos personagens se torna indiferente para o público.
Ao final, até mesmo a figura do hipopótamo perde seu peso simbólico. O animal, que deveria representar toda a desigualdade denunciada na obra, fica em segundo plano, funcionando apenas como um adereço para impulsionar o roteiro. Somente no desfecho ele volta a ter relevância em um momento criado para causar choque.
Ao término de Zafari, a sensação que fica é a de que vimos apenas um recorte de algo maior e que, por conta disso, perdeu boa parte de seu significado. A diretora Mariana Rondón apresenta elementos distópicos que partem de um ponto interessante, porém não se conectam para contar uma história impactante.
Assista ao trailer:
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