Depois da leitura densa de O Caminho dos Reis, é hora de fazer uma pausa para falar sobre outra obra de Brandon Sanderson diretamente ligada ao mundo fantástico de Stormlight. Warbreaker: O Sopro dos Deuses abre mão das batalhas épicas para apresentar um dos sistemas de magia mais originais que já conheci, além de oferecer uma verdadeira aula de construção e desenvolvimento de personagens.
Primeiro de tudo: se você chegou até aqui sem ler a sinopse oficial desse livro, continue assim. Da mesma forma como acontece na maioria das obras do Sanderson, o texto de apresentação dá informações demais, que estragam parte das surpresas. O que você precisa saber sobre Warbreaker é que o volume introduz um mundo regido pela Respiração Biocromática, um tipo de magia baseado nas cores. Nesse contexto, Hallandren é uma nação governada por deuses que está prestes a entrar em guerra contra Idris. Em um acordo político, o rei de Idris decide enviar uma de suas filhas para selar a paz através do casamento com o Rei-Deus hallandreano. Agora, as princesas idrianas Siri e Vivenna precisam encarar seus destinos enquanto tentam proteger uma a outra em meio às intrigas envolvendo os Retornados.
Apesar da iminência da guerra e da presença de seres divinos, a história não foca na ação. O que me chamou atenção logo de início é a inventividade de Brandon Sanderson para construir o Biocroma. Esse sistema mágico complexo — e abstrato, na maioria das vezes — é a base política e religiosa de toda a sociedade hallandreana, dependendo das cores para realizar feitos prodigiosos. Quanto mais Respirações Biocromáticas, mais habilidades e, consequentemente, maior o status do indivíduo.
Contudo, em termos de poder e influência, ninguém supera os deuses Retornados. Essas criaturas cercadas de misticismo formam a elite governante do reino. Sob um manto de futilidades e cultos de adoração, a corte divina esconde segredos e ambições. O maior mistério gira em torno da figura do Rei-Deus e de tudo o que ele representa dentro da estrutura hierárquica.
Ainda que a magia seja um diferencial nesta obra, nada se compara à construção dos personagens. Cada um deles tem relevância ao longo da trama e passa por um desenvolvimento cuidadoso. As irmãs Siri e Vivenna não poderiam ter personalidades mais distintas, porém achei incrível como os papéis delas se invertem conforme os desafios vão se agravando. O misterioso Vasher assume uma postura linha-dura cujos objetivos são desconhecidos durante boa parte do tempo. Já o excêntrico deus Canto-de-Luz é responsável pelos melhores diálogos e tem a evolução mais significativa da história.
Depois de tanto tempo lendo o mesmo autor, é notório que Sanderson conecte seus romances através da Cosmere, seu universo compartilhado. Portanto, não é surpresa que encontremos alguns elementos deste livro apresentados de maneira sutil — ou nem tanto — no segundo volume da saga Stormlight. Por mais que a leitura prévia de Warbreaker não seja obrigatória, facilita muito o entendimento de algumas coisas mencionadas em Palavras de Radiância.
O desfecho, entretanto, deixa a desejar em alguns aspectos. Enquanto os protagonistas são desenvolvidos atenciosamente, a conclusão dos acontecimentos não recebe o mesmo cuidado. Depois de revelada a grande reviravolta, as coisas se desenrolam de maneira tão apressada que fica a sensação de que não há exatamente uma solução para os conflitos. Embora Brandon tenha confirmado uma sequência, é provável que o foco narrativo mude e os leitores fiquem sem maiores explicações sobre o que aconteceu com esse núcleo de personagens.
Mesmo com um encerramento pouco satisfatório para mim, a jornada construída em Warbreaker: O Sopro dos Deuses vale a pena por muitos motivos. A criatividade de Brandon Sanderson fica evidente, assim como seu talento para conceber figuras e sistemas mágicos complexos e instigantes. Isso é o bastante para agradar aos amantes da Fantasia, tanto quem a consome quanto quem a produz.
Adicione este livro à sua biblioteca!
Conteúdo relacionado:
Fique por dentro das novidades!
