Entre 2012 e 2015, John Green se tornou um dos nomes mais populares da literatura para jovens. O grande sucesso de A Culpa É das Estrelas e sua posterior adaptação para os cinemas me levaram a procurar este e outros títulos do autor como Quem É Você, Alasca? e O Teorema Katherine. Dez anos depois, volto a ter contato com ele através de Cidades de Papel. O tempo fez com que eu criasse certa resistência para me identificar com os protagonistas e a narrativa de Green, mas no final me lembrei daquilo que dá profundidade aos seus livros.
Desde criança, Quentin é apaixonado por sua vizinha, a bela, incrível e popular Margo Roth Spiegelman. Às vésperas de se formarem no Ensino Médio, Margo entra pela janela do quarto do rapaz convidando-o a ajudá-la em um elaborado plano de vingança. Logicamente — ou nem tanto — ele aceita. No dia seguinte, enquanto retorna à rotina do colégio, Quentin descobre que a moça desapareceu. No entanto, ela deixa pistas que o garoto não hesita em seguir para tentar encontrá-la. Porém, ele descobre que sua paixão platônica não é bem quem ele imagina.
A escrita de John Green é leve e fluida, contudo eu estava desacostumado a entrar na cabeça de um adolescente comum levando sua vida no colegial. Por isso, logo nos primeiros capítulos de Cidades de Papel, reagi com estranheza à linguagem da obra e aos diálogos obrigatoriamente “sagazes” e “espirituosos” de estudantes fissurados com garotas e bailes de formatura.
Tudo bem, eu me senti um velho rabugento escrevendo isso, mas o que eu quero dizer é que, depois de uma década, meu olhar sobre esse tipo específico de personagem — especialidade do autor — mudou de alguma forma. Os defeitos e erros deles se tornaram mais evidentes por eu mesmo já tê-los cometido. Por isso, o lado egocêntrico de Margo e a personalidade ingênua e manipulável de Quentin se sobressaíram logo de início.
Ainda assim, a leitura começa a se tornar provocante quando a mensagem de Green é transmitida com todas as letras. Todo mundo já se decepcionou com alguém que não era aquilo que esperava. Mas quanto disso também é culpa nossa? É inevitável idealizarmos uma pessoa com base no que nós esperamos dela, seja um ídolo, um amigo e, principalmente, um interesse amoroso. Algumas vezes, a expectativa não condiz com a realidade e temos que encarar a difícil missão de nos colocarmos na pele e na vivência do outro.
Essa reflexão toda poderia se encaminhar para algo melancólico e trágico, mas felizmente o humor torna o livro mais leve e divertido. Os dois personagens que mais contribuem para isso são Ben e Radar. Não faz diferença se você é um adolescente ou um veterano de guerra; quando se junta com seus melhores amigos, o espírito da 5ª série retorna como se nunca tivesse partido.
Então, mesmo achando o começo estranho — e, às vezes, irritante — Cidades de Papel tem aquele ingrediente que faz a escrita de John Green ser tão cativante. Por trás das aparências e expectativas, sempre há outras camadas, assim como nas marcas e dobras de um papel, por mais frágil que este seja.
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