Tijolômetro — Digger (2026):

Até o momento da publicação desta crítica, ainda falta bastante tempo para conhecermos os indicados ao Oscar 2027. Porém, Tom Cruise e o diretor Alejandro González Iñárritu aparentemente já querem garantir sua vaga na premiação com Digger. Com humor incisivo e provocante, a produção mostra um lado pouco conhecido de Cruise e aposta todas as fichas na atuação do astro.
Digger Rockwell (Tom Cruise) é um magnata do petróleo acostumado a ter tudo o que quer. Após ignorar diversos alertas, sua empresa provoca um desastre natural sem precedentes. Determinado a reverter a situação a seu favor, o bilionário decide que se tornará o salvador da humanidade, resolvendo o problema que ele mesmo causou. Para isso, ele reúne o alto escalão do governo e, juntos, constroem sua própria narrativa dos fatos.
Competir com o absurdo da realidade não é fácil, mas Digger tenta explorar as circunstâncias mais improváveis para criar uma sátira afiada que não poupa políticos nem megaempresários. Partindo de uma catástrofe climática, o roteiro escancara o descaso com o meio ambiente e as evidentes alterações na natureza provocadas pela intervenção humana. O resultado é um humor ácido que diverte os espectadores diante do desconforto.
Pode parecer que o desenvolvimento se encaminha para algo previsível. Contudo, a trama brinca com a metalinguagem e apresenta dois pontos de virada significativos que mudam nossa compreensão daquilo que estamos vendo. Além disso, o uso dos sons cria uma atmosfera de apreensão que reforça a decadência construída pelo filme. Os ruídos ambientes — goteiras, passos, o tic tac do relógio — se combinam com gritaria para transmitir uma sensação de caos.
Entre muitos dilemas e desafios, o longa aborda algumas relações conturbadas entre o protagonista e seus familiares. Entretanto, a ligação entre um dos personagens centrais e sua filha não acrescenta peso dramático algum ao desfecho, sendo totalmente descartável.
Apesar do forte tom crítico, quem se destaca de fato é Tom Cruise. Essa não é a primeira vez que o astro passa por uma transformação física marcante para um papel — basta lembrarmos de Trovão Tropical (2008). Porém, sua caracterização como Digger Rockwell está um degrau acima. Ainda mais chamativa é sua atuação claramente visando a uma indicação ao Oscar de Melhor Ator. Suas chances para concorrer a uma estatueta aparentemente são promissoras, somadas a algumas categorias técnicas nas quais a obra pode ser lembrada, como Fotografia, Montagem e Maquiagem e Penteado.
Se é Oscar bait ou não, é quase certo que Digger será lembrado na temporada de premiações. A combinação de crítica social, caracterização e atuação faz o trabalho de Alejandro González Iñárritu se sobressair entre as produções lançadas este ano. Se, além de tudo isso, surgir a primeira nomeação de Tom Cruise pela Academia, será um reconhecimento adicional a toda proposta do filme.
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