As narrativas distópicas ocupam uma posição de destaque entre os meus gêneros literários favoritos. Quanto mais plausível o futuro explorado na ficção, mais fascinante e perturbador. Velhos Demais para Morrer, do escritor mineiro Vinicius Neves Mariano, atraiu meu interesse justamente por tocar em problemas que não são tão improváveis de acontecer. 

Quando os idosos se tornam a maioria da população, o colapso econômico e a crise global são tidos como inevitáveis. Nessa sociedade dividida, os velhos perdem todos os seus direitos e os jovens recorrem a todo tipo de tratamento anti-idade existente. Nesse contexto, acompanhamos três personagens de faixas-etárias distintas que se questionam sobre o sentido de envelhecer em um mundo onde a velhice é desprezada. 

A primeira coisa que me chamou a atenção na sinopse de Velhos Demais para Morrer foi o quanto esse futuro imaginado pelo autor está próximo. Não é de hoje que se fala sobre a necessidade de uma reforma da Previdência para evitar essa ruína econômica em potencial. O mérito do trabalho de Vinicius é extrapolar essa situação e levá-la até as últimas consequências. Assim, vemos os idosos sendo marginalizados, fugindo de grupos de extermínio e vivendo nas condições mais degradantes. 

O trio de protagonistas nos conduz por esse cenário terrível partindo de perspectivas totalmente diferentes. Perdigueiro é apenas um menino condicionado — ou melhor, adestrado — desde cedo a odiar os velhos. Dante é um jovem adulto produto desse mundo doente que começa, aos poucos, a questionar seu papel na sociedade. Já Piedade apresenta o olhar das vítimas, sendo uma idosa fugitiva que precisa lidar com um obstáculo difícil para alguém da sua idade. 

Uma das características mais marcantes do livro é a forma como o tempo é encarado. Em grande parte, ele é um inimigo implacável, inevitável, dando a tudo e a todos um prazo de validade. As pessoas o combatem da única forma que podem: renegando sua existência. Por outro lado, ele se torna o maior aliado das memórias e isso engrandece a história, tanto no conteúdo da mensagem quanto na sua construção. 

Antes do final, eu já tinha uma ideia de como a trajetória dos três personagens se conectaria e essa impressão se confirmou. O único ponto que me incomodou foi o encerramento abrupto após essa confirmação. Por mais que a intenção do autor tenha sido deixar o final aberto, senti falta de alguns detalhes que desenvolvessem mais as ações dos protagonistas antes do fim. 

Mesmo com esse adendo, Velhos Demais para Morrer é uma obra que recomendo tanto pela experiência da leitura quanto pela originalidade ao abordar esse tema. Ainda que se trate de um problema econômico com probabilidade considerável de ocorrer, fica a esperança — e o alerta — de que a realidade social não se mostre tão brutal e perturbadora quanto a ficção.

Adicione este livro à sua biblioteca!

Conteúdo relacionado:

Fique por dentro das novidades!

Publicidade
Share.
Mozer Dias

Engenheiro por formação, mas apaixonado pelo mundo da literatura e do cinema. Se eu demorar a responder, provavelmente estou ocupado lendo ou assistindo a um filme.

Exit mobile version