Tijolômetro – Foi Apenas Um Acidente (2025) 

Ótimo!

Frequentemente, o Irã é mencionado nos telejornais graças ao extremismo de seu regime teocrático e aos conflitos nos quais se envolve, sendo o mais recente a guerra contra os Estados Unidos. Contudo, o país também é uma rica fonte cultural, especialmente no cinema. Através da Sétima Arte, os cineastas iranianos mostram as belezas de sua nação e aproveitam para denunciar ao resto do mundo as maiores barbaridades cometidas pelo governo. Foi Apenas Um Acidente, escrito e dirigido por Jafar Panahi, é o exemplo mais recente de como a perseguição política deixa marcas irreversíveis em uma grande parcela dos cidadãos. 

O mecânico Vahid (Vahid Mobasseri) é um ex-prisioneiro político que foi torturado pelo regime iraniano. Anos depois, ele acredita ter encontrado seu torturador e decide sequestrá-lo para se vingar. O único problema é que Vahid não tem certeza se aquele homem realmente foi seu algoz na prisão. Então, ele decide ir atrás de outras vítimas na esperança de que elas confirmem a identidade do sujeito. 

O primeiro detalhe a chamar a atenção em Foi Apenas Um Acidente é a originalidade de sua premissa, algo que lhe rendeu não apenas uma indicação a Melhor Roteiro Original no Oscar 2026, mas também uma vaga na disputa pelo prêmio de Melhor Filme Internacional. Na trama, temos diversos personagens movidos pelo desejo de fazer justiça, mas limitados a lembranças sonoras, táteis e olfativas insuficientes para confirmar que eles estão agindo contra a pessoa certa. 

E ainda que haja elementos ficcionais, o diretor Jafar Panahi coloca muito de sua vida e experiência pessoal em tela. Ele também foi perseguido e preso pelas autoridades do Irã por expor diversos abusos. Partindo daí, ele faz um retrato cru da repressão do governo e dos traumas profundos que essa violência causa em suas vítimas. Com isso, o filme se torna um complemento ao cenário político atual do país, marcado pela guerra contra os Estados Unidos e Israel. 

Fazendo uma comparação com Zona de Interesse (2023), o longa iraniano trata do mesmo conceito de banalização do mal desenvolvido pela filósofa Hannah Arendt. Em ambas as produções, os torturadores se colocam como pequenas peças do regime e que estão apenas “seguindo ordens”, sem pensar a respeito do dano que estão causando. 

Entretanto, o roteiro vai além e faz um contraponto, questionando se é válido realizar justiça com as próprias mãos. A incerteza sobre a identidade do torturador é a única coisa que impede os personagens de irem adiante ou existe algo mais? Esse dilema é bem trabalhado em cenas como a da menina no hospital, mesmo que isso quebre momentaneamente o ritmo da narrativa principal. 

O desfecho da obra se destaca por deixar o final aberto a mais de uma interpretação. O que torna a cena impactante é a sutileza dos sons. A partir de um detalhe significativo, o espectador escolhe se testemunhou o encerramento de um ciclo ou então o recomeço de toda a trajetória dos personagens até aquele breve momento. 

Diante das atuais tensões geopolíticas envolvendo o Irã, Foi Apenas Um Acidente evidencia mais um lado obscuro na realidade social do país. Por meio de uma abordagem criativa e provocante, Jafar Panahi expõe as injustiças, mas se sobressai ao entregar aquilo pelo qual a cultura iraniana é reconhecida na indústria cinematográfica.

Assista ao trailer:

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Mozer Dias

Engenheiro por formação, mas apaixonado pelo mundo da literatura e do cinema. Se eu demorar a responder, provavelmente estou ocupado lendo ou assistindo a um filme.

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