Tijolômetro – O Agente Secreto (2025) 

Regular

Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil está fazendo história no cinema mundial. Em 2025, Ainda Estou Aqui trouxe para casa o Oscar de Melhor Filme Internacional. Agora é a vez de O Agente Secreto e Wagner Moura tentarem repetir o feito e se destacar nas quatro categorias em que a obra está concorrendo. Por mais que as duas produções se passem durante a Ditadura Militar, o longa escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho aposta em uma abordagem diferente, porém irregular, para retratar a ameaça do período. 

Em 1977, o professor universitário Marcelo (Wagner Moura) chega ao Recife fugindo de um passado pautado pela injustiça. Enquanto tenta reconstruir a vida ao lado de seu filho pequeno, ele descobre que está na mira de assassinos. Assim, a capital pernambucana, que deveria ser um refúgio, acaba se tornando um cenário de caos e desconfiança. 

Apesar de a trama também se desenrolar durante o regime militar, Kleber Mendonça Filho constrói uma atmosfera diferente da apresentada no longa de Walter Salles. A ambientação na década de 1970 é marcada por figurinos, músicas e carros típicos dessa época, demonstrando um carinho especial por Pernambuco e sua cultura. Ao mesmo tempo, é visível o contraste provocado pela violência mal disfarçada das autoridades e pelo constante sentimento de medo. 

Publicidade

Outro destaque é a atuação de Wagner Moura, que já lhe rendeu o Globo de Ouro. Seu personagem transparece um tipo de calma contemplativa, quase uma resignação diante da sua atual condição. Mesmo que Marcelo não tenha muitos rompantes de emoção memoráveis ao longo da narrativa, a indicação de Wagner ao Oscar de Melhor Ator é justificada. 

Além de concorrer em Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, O Agente Secreto marca presença na nova categoria de 2026, Melhor Direção de Elenco, que avalia a seleção dos atores para o projeto. Entre os coadjuvantes, o principal nome é o da atriz Tânia Maria na pele de Dona Sebastiana, uma figura relevante no roteiro. 

Dessa maneira, o suspense ao redor do protagonista é construído seguindo uma estrutura dividida em capítulos que soltam as respostas aos poucos. Descobrimos quem é Marcelo, do que ele está fugindo e por quê. Isso cria uma expectativa de que as coisas enfim irão deslanchar, mas o instante é adiado graças a cenas desconexas do restante da história que comprometem o ritmo do desenvolvimento. O núcleo das jornalistas no tempo presente, por exemplo, poderia ser omitido sem prejudicar a compreensão da trama de 1977. Essa e outras adições tornam as 2h40 de projeção excessivamente cansativas e arrastadas. 

Quando finalmente chegamos ao maior nível de tensão do longa, uma mudança brusca de perspectiva frustra a experiência cinematográfica. O desfecho se torna anticlimático não pelo que acontece, mas pela forma como é apresentado ao público. A quebra de expectativa, em vez de surpreender, anula o impacto da jornada de Marcelo, oferecendo um tratamento indigno a ele. 

Pondo na balança, O Agente Secreto tem qualidades técnicas que explicam sua presença no Oscar, ainda que não seja o trabalho mais consistente da temporada. O conjunto é prejudicado por irregularidades no ritmo e por escolhas narrativas questionáveis que dizem respeito à conclusão dada ao projeto. Por mais relevante que sua proposta seja, o filme é mais respeitável do que memorável.

Assista ao trailer:

Conteúdo relacionado:

Fique por dentro das novidades!

Publicidade
Share.
Mozer Dias

Engenheiro por formação, mas apaixonado pelo mundo da literatura e do cinema. Se eu demorar a responder, provavelmente estou ocupado lendo ou assistindo a um filme.

Exit mobile version