Tijolômetro – Os SUPERtontos (Netflix)

Ótimo!

Em meio ao crescente destaque das produções sul-coreanas no cenário global, Os SUPERtontos mostra como o país também consegue oferecer uma abordagem renovada para um subgênero que, em muitos mercados, já dá sinais de desgaste: o de super-heróis. Com um elenco afiado na comédia, a série da Netflix abraça o absurdo de sua premissa e transforma situações potencialmente ridículas em sua principal força. 

Em Haeseong, no final de 1999, três moradores acabam desenvolvendo superpoderes após um acidente envolvendo resíduos químicos de um laboratório clandestino. Ao lado de um funcionário público com poderes telecinéticos, eles tentam proteger a sua pequena cidade do interior de uma ameaça sobrenatural, conectada a um laboratório secreto que foi instalado por lá anos atrás.

Mesmo com uma história voltada para a fantasia e a aventura, esse k-drama de oito episódios encontra seu maior trunfo na forma como transforma poderes extraordinários em fonte constante de humor. Muito disso se deve à criatividade por trás dos poderes de seus protagonistas. O teletransporte de Chae-ni (Park Eun-bin), por exemplo, acontece de forma caótica sempre que seu coração acelera. Já Ro-bin (Im Seong-jae) tem sua força ampliada quando é ofendido, enquanto Gyeong-hun (Choi Dae-hoon) produz uma substância extremamente grudenta nas mãos toda vez que conta uma mentira.

Nesse sentido, é interessante como os poderes estão diretamente ligados às emoções e fragilidades de cada personagem. A série encontra boa parte de seu humor justamente na maneira como transforma inseguranças e defeitos humanos em habilidades extraordinárias 

Outro ponto importante é que não há aqui longas sequências de treinamento ou cenas de ação coreografadas para parecerem grandiosas. Em vez disso, Os SUPERtontos extrai boa parte de sua graça da confusão provocada por habilidades tão absurdas quanto inconvenientes. O humor físico corre solto, mas só funciona porque o elenco se entrega completamente às situações mais ridículas sem transformar os personagens em simples caricaturas. Em vez de utilizar os poderes apenas como ferramentas heroicas, o roteiro explora constantemente os acidentes, os constrangimentos e as confusões provocados por eles.

É nesse aspecto que Park Eun-bin se destaca. Repetindo a parceria com o diretor Yoo In-shik, de Uma Advogada Extraordinária (2022), a atriz sustenta boa parte do tom da série ao equilibrar sarcasmo, vulnerabilidade e comédia física com naturalidade. Choi Dae-hoon também merece destaque, especialmente pela forma como transforma um personagem potencialmente unidimensional em uma das figuras mais carismáticas da trama. 

Mas por trás do tom leve da produção existe uma parte  sombria representada pela figura do cientista Won-do (Son Hyeon-ju), que recomeça suas experiências humanas após anos na prisão. Conhecido como líder do sombrio “Projeto Wunderkinder”, ele comandou o sequestro de crianças que ganharam superpoderes a partir de um processo abusivo e, muitas vezes, letal. 

Inclusive, entre os sobreviventes de uma tragédia no seu laboratório está Lee Un-jeong (Cha Eun-woo), funcionário público que tenta levar uma vida normal mesmo com poderes de mover as coisas com a mente. Sua tranquilidade acaba quando conhece o trio e se une contra os planos do Won-do.  Apesar de demonstrar menos desenvoltura nas cenas cômicas, Cha Eun-woo funciona como um contraponto mais sério ao restante do elenco. 

Os SUPERtontos talvez não seja a produção mais ambiciosa do gênero, mas entende algo que muitas obras recentes parecem ter esquecido: às vezes, abraçar o ridículo é justamente o que torna uma história divertida.

Assista ao trailer de Os SUPERtontos:

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Marcus Alencar

"Palavras importam! Uma morte, uma ondulação e a história mudará em um piscar de olhos"

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